Para o meu avô,
que já não respira.

O meu avô chamava-se Miguel. Vivia no Porto, num T1 sem ar condicionado, com uma janela que dava para um pátio interior.
No Verão de 2022 — aquele em que Portugal bateu 47ºC — perdi-o. Não foi o calor que o matou, dizem os médicos. Mas foi o calor que apertou tudo o resto.
Tinha-lhe prometido que ia comprar-lhe um ventilador melhor. Daqueles que arrefecem mesmo. Não cheguei a comprar.
Quando cheguei à casa dele, dois dias depois, o ventilador velho ainda estava ligado. Quente. A girar para nada.
Passei os três anos seguintes a desenhar aquilo que devia ter-lhe levado. Pequeno. Silencioso. Que humidifica o ar seco. Que se pega numa mão. Que se leva para a varanda, para o quarto, para a mesinha de cabeceira de quem mais precisa.
Chamei-lhe Miguel Porto. O nome dele. A cidade dele.
Não vai resolver tudo. Mas talvez resolva o suficiente para que, no próximo Verão, alguém não tenha de fazer a chamada que eu fiz.

"Avô, finalmente trouxe-te aquele ventilador."
Ver o ventilador